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10 de outubro de 2026
Por Raíra Alves
8 minutos de leitura

Inteligência artificial na editoração científica: como usar com responsabilidade

Não adianta negar, a inteligência artificial já faz parte da rotina de pesquisadores, autores e editores. Ferramentas capazes de revisar textos, organizar informações, resumir documentos, sugerir palavras-chave e automatizar tarefas vêm sendo incorporadas a diferentes etapas da comunicação científica. 

Esse movimento abre possibilidades importantes para os periódicos científicos. Quando utilizada de maneira estratégica, a IA pode reduzir o tempo dedicado a atividades repetitivas, apoiar a identificação de inconsistências e contribuir para fluxos editoriais mais organizados.

No entanto, é importante destacar que adotar uma ferramenta não significa, por si só, tornar um processo mais eficiente ou confiável. Na editoração científica, o uso responsável da inteligência artificial depende de critérios claros, proteção das informações, transparência, supervisão humana e alinhamento com as políticas do periódico.

Antes de aderir a novas ferramentas, as equipes editoriais precisam compreender em quais situações a IA pode agregar valor, quais riscos precisam ser administrados e quem continuará responsável por supervisionar seu uso e responder pelas decisões tomadas ao longo do processo.

Como a inteligência artificial pode apoiar o fluxo editorial

Os periódicos científicos lidam diariamente com um grande volume de informações, documentos e tarefas operacionais, como conferência de arquivos, padronização de dados, comunicação com autores, acompanhamento de prazos, preparação de textos e organização de metadados. 

Soluções baseadas em inteligência artificial podem otimizar atividades preliminares ou repetitivas, como: 

  • identificação de campos incompletos em uma submissão;
  • conferência inicial de elementos obrigatórios;
  • sugestão de termos para indexação; 
  • pré-revisão de aspectos linguísticos ou formais; 
  • organização de documentos; 
  • categorização de conteúdos; 
  • elaboração de modelos para comunicações administrativas. 

 

Em algumas situações, a tecnologia pode ajudar a equipe a localizar inconsistências que deverão ser analisadas posteriormente por um profissional.

O ponto central está no papel atribuído a cada ferramenta. A IA pode funcionar como um apoio, oferecendo sugestões ou sinalizando informações que merecem atenção. Ainda assim, seus resultados precisam ser revisados, contextualizados e validados antes de produzir qualquer consequência no fluxo editorial.

Isso acontece porque sistemas de inteligência artificial não compreendem um manuscrito da mesma forma que um editor, um pesquisador ou um especialista da área. Eles operam a partir de padrões, dados e probabilidades. Por isso, ainda que gerem respostas aparentemente coerentes, podem apresentar informações incorretas, incompletas ou inadequadas ao contexto específico da publicação.

O que a inteligência artificial não substitui

O trabalho editorial envolve decisões que afetam a credibilidade do periódico, a integridade da literatura científica e a relação construída com autores, pareceristas e leitores.

A IA não substitui o julgamento científico necessário para avaliar a relevância de uma pesquisa ou a contribuição que o estudo oferece para determinada área do conhecimento.

Também não deve assumir, de forma autônoma, decisões de aceite, rejeição ou encaminhamento de manuscritos. Mesmo que sejam usadas ferramentas para apoiar a triagem inicial, a análise precisa permanecer sob responsabilidade de profissionais capazes de considerar o escopo do periódico, suas políticas e as particularidades da área.

As recomendações do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) indicam que os periódicos devem estabelecer políticas para o uso de inteligência artificial e manter autores, editores e pareceristas informados sobre essas regras.

A IA também não pode ser responsabilizada pela precisão de uma informação, responder por conflitos de interesse ou autorizar a versão final de um artigo científico. Por esse motivo, organizações como o Committee on Publication Ethics (COPE) afirmam que ferramentas de IA não atendem aos critérios necessários para serem reconhecidas como autoras de um trabalho científico.

Confidencialidade e proteção de dados no uso da IA

Durante a submissão e a revisão por pares, os manuscritos ainda não publicados devem ser tratados como documentos confidenciais. Isso inclui o texto, os dados apresentados, as observações dos pareceristas e as decisões editoriais.

Inserir esse conteúdo em uma ferramenta externa sem conhecer suas condições de armazenamento, processamento e utilização pode expor informações protegidas e comprometer a confiança depositada no periódico.

O ICMJE orienta que editores e pareceristas não enviem manuscritos submetidos para sistemas de IA nos quais a confidencialidade não possa ser garantida, salvo quando houver permissão explícita e uma política que regulamente esse uso.

É importante lembrar que a preocupação não se restringe ao envio integral de um artigo. Trechos de resultados, pareceres, tabelas, dados sensíveis ou descrições suficientemente específicas também podem revelar informações confidenciais.

Antes de utilizar uma ferramenta, portanto, a equipe editorial precisa compreender quais dados serão processados, se eles ficarão armazenados, se poderão ser usados para treinamento do sistema e quais garantias são oferecidas pelo fornecedor.

Sem esse cuidado técnico, o periódico não consegue assegurar a confidencialidade dos materiais e pode ficar exposto a falhas graves relacionadas à segurança das informações.

Transparência sobre o uso da IA

O uso responsável de IA também exige transparência. Quando a inteligência artificial participa de maneira relevante da elaboração, revisão ou preparação de um trabalho, o periódico precisa definir como essa utilização deverá ser informada a autores, pareceristas e leitores.

As recomendações do ICMJE indicam que os autores devem informar, no momento da submissão, o uso de tecnologias assistidas por IA e descrever como elas foram empregadas.

Transparência não significa apenas informar que uma ferramenta foi utilizada, mas tornar compreensível qual foi a sua participação e quais mecanismos de revisão humana foram aplicados.

Além disso, essa declaração não transfere a responsabilidade para a ferramenta. Os autores continuam responsáveis pela veracidade, originalidade, integridade e precisão de todo o conteúdo apresentado. A mesma lógica deve orientar editores, pareceristas e prestadores de serviços. 

Boas práticas para incorporar a IA com responsabilidade

Cada periódico precisa construir uma política editorial que ofereça referências comuns para autores, editores, pareceristas e demais profissionais envolvidos no fluxo de publicação.

Algumas práticas ajudam os periódicos a aproveitar os benefícios dessas ferramentas sem comprometer a qualidade e a responsabilidade editorial.

Identifique necessidades concretas

O primeiro passo é compreender qual problema a ferramenta deverá ajudar a resolver. A adoção da IA deve responder a uma necessidade real do fluxo editorial, como reduzir tarefas repetitivas, organizar informações ou apoiar conferências preliminares, e não apenas ao interesse em acompanhar uma tendência tecnológica.

Teste a ferramenta antes de incorporá-la ao fluxo

Antes de utilizar uma solução de forma recorrente, o periódico precisa testá-la em um ambiente controlado e analisar a qualidade dos resultados apresentados. Essa etapa permite identificar limitações, possíveis riscos e situações nas quais a ferramenta pode ou não ser útil.

Não baseie decisões apenas em respostas automatizadas

Um sistema pode sinalizar similaridades, inconsistências ou possíveis irregularidades, mas esses alertas não devem ser tratados como conclusões definitivas. Cada situação exige análise contextualizada e, quando necessário, diálogo com as pessoas envolvidas.

Decisões de aceite, rejeição, encaminhamento ou investigação precisam continuar sob responsabilidade da equipe editorial, com base nas políticas e nos critérios estabelecidos pelo periódico.

Defina responsabilidades e capacite a equipe

A incorporação da IA deve ser acompanhada pelo registro dos processos, pela definição de responsabilidades e pela capacitação dos profissionais envolvidos.

Usar ferramentas de IA com responsabilidade exige conhecer suas funcionalidades, assim como seus limites, possíveis vieses, condições de uso e implicações para a confidencialidade das informações. 

Revise as políticas periodicamente

As tecnologias de inteligência artificial evoluem rapidamente, assim como as orientações sobre seu uso na comunicação científica. Por isso, as políticas e os procedimentos adotados pelo periódico precisam ser acompanhados e atualizados periodicamente.

A governança da IA não é uma decisão tomada uma única vez, mas um processo contínuo de avaliação, aprendizagem e aperfeiçoamento.

Tecnologia e responsabilidade devem avançar juntas

A inteligência artificial pode apoiar a editoração científica e reduzir tarefas operacionais, mas seus benefícios dependem da maneira como ela é incorporada ao processo.

Nenhuma ferramenta substitui políticas editoriais consistentes, critérios científicos, proteção da confidencialidade e profissionais preparados para tomar decisões responsáveis.

Na Editora Cubo, acompanhamos as transformações da publicação científica e apoiamos periódicos na estruturação de fluxos editoriais completos, com atenção à qualidade técnica, à integridade e à evolução das práticas do setor.

Entre em contato com nossa equipe e descubra como podemos apoiar a publicação do seu periódico com qualidade e segurança.

Cover image: Designed by Magnific

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